Princípios

OS PRINCÍPIOS DO PROJETO DA EMEF. PRES. CAMPOS SALLES

Todas atividades e ações planejadas na EMEF. Pres. Campos Salles terão como objetivo principal vivenciar e concretizar cotidianamente os princípios norteadores da escola por toda a comunidade escolar. São eles:

1.Escola como centro de liderança na comunidade onde está inserida

2. Tudo passa pela educação

3. Autonomia

4. Responsabilidade

5. Solidariedade.

Os dois primeiros têm pautado as ações/atividades da escola desde novembro de 1995, enquanto que os princípios da autonomia, da responsabilidade e da solidariedade foram incorporados, mais sistematicamente, pelo projeto da escola, a partir do início de 2006.

Os princípios “tudo passa pela educação e escola como centro de liderança” contribuíram para a construção de uma forte relação da escola com a comunidade, principalmente com as suas lideranças que perceberam a importância da educação para a transformação social, mas não conseguiram transformar as práticas pedagógicas inadequadas que predominavam na escola; por outro lado, colocou as condições necessárias para a aprovação do projeto – a implementação de uma metodologia de ensino com base nos princípios da escola da ponte – em setembro de 2005.

Os princípios norteadores do projeto da EMEF. Pres. Campos Salles, atualmente, estão assim formulados:

1. A escola como centro de liderança na comunidade onde está inserida

Com a pretensão de ser neutra, a Escola Pública acabou abdicando-se da liderança que havia de exercer na comunidade em que atua. Para não ser “contaminada”, com o pretexto de que cuida dos “assuntos educacionais”, distanciou-se da realidade social, passando a trabalhar, então, com um aluno descontextualizado.

Atuando isoladamente, a escola não é capaz de romper com os roteiros previamente estruturados, com a repetição, com a exclusão social, com os mecanismos da construção psico-social da subalternidade. Como sair desse impasse?

A princípio, poderia se responder que essa empreitada é tarefa de todas as instituições, mas a escola deve se colocar à frente das demais, pois os educadores das escolas têm o privilégio de entrar em contato efetivo com toda a população, já que quase todas as crianças brasileiras acessam à escola e através dela poderiam interagir com toda a sociedade.

O que se propõe de fato é o fortalecimento da relação Escola-Comunidade, onde a escola deve ser um centro de liderança comprometido com o saber e, juntamente com as outras instituições e lideranças da comunidade, romper as amarras que aprisionam a todos às estruturas sociais pré-determinadas.

2. Tudo passa pela educação.

Tudo passa pela educação quando o educador da escola é cidadão. Ele busca não só a mudança da escola, mas também a mudança da sociedade, juntamente com os outros agentes educativos que não estão dentro da escola. Sabe que a escola e a sociedade mudam juntas. Interage com o aluno contextualizado, pois é portador de uma visão de mundo que leva em consideração as estruturas política, econômica, histórica e cultural que moldam os sujeitos. Ajuda o aluno a perceber que a sociedade que não atende aos direitos referentes à vida, à saúde, à moradia, à alimentação, etc, compromete os outros direitos, até mesmo o direito à educação.

O educador-cidadão não fala bem ou mal da luta do povo pelos direitos; ao contrário, assume-a como sua, pois quer educar e ser educado na ação, com os outros, na busca da melhoria da qualidade de vida. Ele sabe que a educação do povo é tarefa de toda sociedade. Sabe também que a escola nunca foi e nunca será a única responsável no campo educacional e que ela só faz bem a parte que lhe cabe quando atua articuladamente com a comunidade e suas instituições.

3. Autonomia

Na Antiguidade e Idade Média, a Ética era heterônoma, ou seja, as normas, as regras eram exteriores aos indivíduos. Para viver eticamente bastava introjetá-las. Esta visão deu uma guinada com Kant. Para ele, a Ética é autônoma e não heterônoma, isto é, a lei é ditada pela própria consciência moral e não por qualquer instância alheia ao Eu. Kant dá prosseguimento à construção da própria moral. Não se espera algo de fora. Aquilo que o homem procura está dentro dele mesmo. Deixar-se guiar pelas máximas alheias é perder o eu em si mesmo, ou seja, é abdicar-se do processo de constituição do sujeito. Ninguém se constitui como sujeito na solidão, este se constitui pelo contato entre os seres humanos, pois as ações individuais no cumprimento dos deveres devem salvaguardar a liberdade própria e a do outro.

O Dicionário Aurélio apresenta os seguintes sentidos para a palavra autonomia: a) Faculdade de se governar por si mesmo; b) Direito ou faculdade de reger (uma nação) por leis próprias; c) Liberdade ou independência moral ou intelectual e d) Propriedade pela qual o homem pretende poder escolher as leis que regem sua conduta.

Filosoficamente, o conceito de autonomia confunde-se com o de liberdade, consistindo na qualidade de um indivíduo de tomar suas próprias decisões, com base em sua razão individual.

Com o advento da “sociedade pós-tradicional”, o princípio da autonomia não pode mais ser entendido apenas como sendo a autodeterminação de um indivíduo. Na realidade, o pensamento de Kant já trazia uma nova perspectiva que aliava a ação individual com o componente social.

Holgonsi Soares, no texto “A Importância da Autonomia”, publicado no jornal “A Razão” em 25.06.98, diz que com o avanço do processo de globalização, que se iniciou trinta anos atrás, o homem foi obrigado a abdicar-se da rigidez das idéias. A obediência cega e a concordância foram substituídas pelo seu oposto, a autonomia, que é condição básica para conviver com os riscos, incertezas e os conflitos da “sociedade pós-tradicional”. Segundo ele, tudo iniciou-se no mundo da produção, quando a racionalidade tecnológica colocou como pré-requisito o domínio do conhecimento, a capacidade de decidir, de processar e selecionar informações, a criatividade e a iniciativa. Estas são habilidades de um indivíduo autônomo e, neste sentido, a autonomia tornou-se uma necessidade material, a princípio, restrita à esfera da produção e aos poucos foi envolvendo todos os domínios da vida contemporânea. Sendo assim, é hoje também uma necessidade emocional, uma necessidade sócio-cultural e uma necessidade política.

“…necessidade emocional, uma vez que os indivíduos precisam desenvolver uma efetiva comunicação entre si, numa sociedade em que o diálogo molda a política e as atividades. A falta de autonomia no âmbito psicológico obstaculiza as discussões abertas, gera violência e impede a manifestação plural; como diz a cientista social A’gnes Heller, ‘é uma afronta à autonomia do outro’. Portanto, a autonomia psicológica é necessária para se entrar em efetiva comunicação com o Outro, num diálogo que ocupa um espaço público no qual ‘todas as facções discutem entre si numa relação simetricamente recíproca’ (Heller), livres do uso da coerção e da retórica.

…necessidade sócio-cultural, uma vez que a nova sociedade traz em suas contradições produtivas um amplo movimento cultural de superação de velhas concepções de mundo, exigindo uma nova direção das relações sociais e a elaboração de um novo comportamento chamado ‘reflexivo’. Sob este aspecto, a autonomia torna-se necessidade política, pois somente um indivíduo autônomo possui condições de entender as contradições do mundo globalizado, questionando-as e agindo no sentido de canalizar as oportunidades para mudanças qualitativas” (Soares)

Resumindo, para o autor, a autonomia tornou-se condição de sobrevivência para os indivíduos na sociedade pós-tradicional. Só a autonomia garantirá para o indivíduo sucesso nas esferas econômica, psicológica, sócio-cultural e política. O indivíduo autônomo interroga, reflete e delibera com liberdade, responsabilidade e solidariedade. Ele não aceita obedecer e seguir aquilo que foi construído e pensado pelo outro sem a sua participação.

4. Responsabilidade

O termo responsabilidade originou-se da palavra latina responsabilitas, de respondere, que significa: responder, estar em condições de responder pelos atos praticados, de justificar as razões das próprias ações.

O Dicionário Aurélio define responsabilidade moral como: 1. Situação de um agente consciente com relação aos atos que ele pratica voluntariamente. 2. Obrigação de reparar o mal que se causou aos outros.

É responsável o indivíduo que aceita e repara as inevitáveis conseqüências de seu comportamento. Antes de agir reflete, pois responde por seus atos e não quer provocar danos que não pode reparar ao outro e a si mesmo.

A responsabilidade pessoal possui várias definições. Podemos encontrar nelas um ponto em comum, ou seja, o dever do indivíduo assumir as conseqüências de seus atos e decisões. E o argumento da ignorância não isenta o indivíduo das conseqüências de suas decisões.

No texto “Ética e Responsabilidade,” Sérgio Biagi Gregório afirma: “A ação humana, embora restrita à responsabilidade pessoal, tem como objetivo o interesse público. A vivência, semelhante à do eremita no deserto, é uma exceção. A questão ética diz respeito ao auxílio que cada um possa exercer na transcendência do outro. Em realidade, é a criação de condições para que o outro realize plenamente o seu projeto de vida no qual foi destinado”.

Não podemos limitar o espaço da responsabilidade ao domínio das ações individuais. Com o advento da sociedade pós-tradicional, a complexa dinâmica de transformações exige também uma modificação de nossa competência pessoal de sermos responsáveis.

José Eduardo de Siqueira, no texto “Hans Jonas e a Ética da Responsabilidade,” nos mostra que o filósofo aponta para a necessidade do ser humano agir com muito cuidado e humildade diante do extremo poder transformador da tecnociência. Esta trouxe um poder inesperado e deve-se usá-lo no caos de um mundo pós-tradicional, pós-cristão e pós-moderno. O uso inadequado do progresso técnico global expõe a natureza e a própria humanidade à completa destruição. Daí a necessidade de uma nova ética que contemple a natureza e não apenas a pessoa humana.

As éticas tradicionais eram baseadas nas seguintes premissas: a natureza humana e das coisas era imutável, determinava-se com clareza e sem dificuldade o bem humano e o alcance da ação humana e de sua conseqüente responsabilidade estava perfeitamente delimitado. O advento da sociedade pós-tradicional, com sua dinâmica de transformações, coloca tudo isso por terra. Ao imperativo Kantiano: “age de tal maneira que o princípio de tua ação transforme-se numa lei universal”, Jonas antepõe o imperativo: “Age de tal maneira que os efeitos de tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida humana autêntica”, ou de forma negativa: “não ponhas em perigo a continuidade indefinida da humanidade na Terra”.

Com o avanço do desenvolvimento tecnológico, a responsabilidade do homem para consigo mesmo e para com os outros homens foi ampliada também para a natureza. A relação de responsabilidade que o homem passou a manter com a natureza decorre do fato de que ela se encontra sobre o seu poder e a destruição dela significa a destruição dele também. A responsabilidade de cada pessoa para consigo mesma é indissociável daquela que se deve ter em relação a todas as demais. É uma solidariedade que a liga a todas as pessoas e à natureza que a cerca.

Não se pode negar que a responsabilidade, além do seu lado subjetivo, tem também o seu lado objetivo. O lado subjetivo da responsabilidade seria a dimensão íntima da ética das ações. São sentimentos, sensações de remorso, angústia e sofrimento que o sujeito da ação assume diante de sua intervenção, seja num momento passado ou em ações futuras. Já o lado objetivo da responsabilidade refere-se à responsabilidade ética relativa ao outro, ao ser humano presente, real e objeto de ação transformadora, e o mesmo pode se dizer também, das ações sobre a natureza extra-humana.

Pelo exposto acima, José Eduardo de Siqueira é levado a afirmar que: “A responsabilidade é, portanto, na ética, a articulação entre duas realidades, uma subjetiva e outra objetiva. É forjada por essa fusão entre o sujeito e a ação. Ao mesmo tempo há, também, um aspecto de descoberta que se revela na ação propriamente dita e suas conseqüências. A ordem ética está presente, não como realidade visível, mas como um apelo previdente que pede calma, prudência e equilíbrio. À esta nova ordem, Jonas dá o nome de Princípio da Responsabilidade.”

5. Solidariedade

O Dicionário Aurélio dá vários significados para o termo solidariedade. Entre eles destacam-se: “1. Laço ou vínculo recíproco de pessoas ou coisas independentes. 2. Sentido moral que vincula o indivíduo à vida, aos interesses e às responsabilidades dum grupo social, duma nação, ou da própria humanidade. 3. Relação de responsabilidade entre pessoas unidas por interesses comuns, de maneira que cada elemento do grupo se sinta na obrigação moral de apoiar o outro”.

Para Sérgio Luis Boeira, http://hps.infolink.com.br/peco/boeira02.htm, solidariedade é a arte da conquista de uma relação social autêntica. Ela se refere ao indivíduo e ao coletivo. Ela não se confunde com bondade, com envolvimento romântico e com popularidade. Diz ele:”A solidariedade, entretanto, precisa distinguir-se da bondade, que pode ser unilateral. Quando somos solidários, de certa forma vamos além da bondade, porque participamos de um movimento social nascente, que pode incluir duas ou mais pessoas. A solidariedade também difere do envolvimento romântico, porque, ao contrário deste, preserva-se na solidariedade a individualidade do outro e a nossa própria liberdade e discernimento. O ser solidário não é vítima do apego ou do ciúme patológico, simplesmente porque se recusa a congelar a imagem que tem do outro e de si mesmo, podendo, por isso, estender a solidariedade às transformações do outro, desde que haja reciprocidade”. Sem reciprocidade não há como desenvolver-se a solidariedade. A quantidade de pessoas que conhece alguém pode fazê-lo popular, mas não necessariamente solidário.

A solidariedade é um processo dialético que possibilita o desenvolvimento do potencial humano e dele se nutre. Sendo assim, ela é fundamental para a construção de uma ordem social cada vez mais justa, na qual as tensões possam ser mais bem resolvidas e os conflitos encontrem mais facilmente sua solução por consenso.

Boeira nos propõe “… que precisamos todos compreender a necessidade não só de aprender a arte de ser solidário, mas também a necessidade social de estimular o aprendizado de outrem. Ou seja, a solidariedade, sendo um processo de libertação social, de autoconhecimento coletivo, não é qualidade que se tem ou não se tem, mas que se aprende e se ensina partindo das mais variadas condições sociais, dos mais variados ambientes ou ecossistemas.”

Não temos dúvidas de que a vivência dos princípios acima, por toda a comunidade escolar da EMEF. Pres. Campos Salles, contribuirá para a transformação social com base na justiça, na democracia, na autonomia, na responsabilidade e na solidariedade.

Os princípios descritos acima serão vivenciados nas atividades desenvolvidas no cotidiano escolar por todos os alunos, mas também, pelos profissionais que trabalham na escola. Todos serão aprendizes neste processo. Com o passar do tempo, estes princípios perpassarão toda a comunidade de Heliópolis através dos alunos, dos seus pais, da ação dos profissionais da escola e das lideranças que já estão envolvidas com o projeto.

Estes princípios só farão sentido se articulados. Como por exemplo, uma pessoa autônoma é uma pessoa livre, mas uma pessoa livre só pode fazer aquilo pelo qual possa responsabilizar-se, e o que ela faz não pode prejudicar o outro. Viver de acordo com estes princípios não é fácil. É uma aprendizagem lenta e gradual. A EMEF. Pres. Campos Salles tentará criar condições apropriadas para que eles adquiram sentidos de acordo com a vivência de cada um.

São Paulo, 28/11/2008

2 respostas para Princípios

  1. Helio Ruiz disse:

    Saudações da Suécia, eu chamei Hélio Ruiz, membro do Partido Verde na Suécia (Gotemburgo), trabalhando na seção de imprensa para a partida e também o “Grupo Latino, e diretor da Agência de Notícias HRNEWS, Estou interessado em ter comunicação com outras partes verdes da América Latina.

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